Escrito por Fernanda Cunha

Com a diminuição da presença de arquitetos e urbanistas na concepção das áreas urbanas, uma nova relação profissional com os espaços públicos vem ganhando notoreidade e aceitação nas grandes cidades mundo afora. Esta forma de comunicação é vista com bons olhos pelos cidadãos, principalmente nos países europeus berço de design, como Itália e a pequena Holanda, e no Oriente como Coréia e Japão.
Dizem que todos na Itália são artistas porque desde muito pequenos, ainda no carrinho, tudo o que observam é bonito. E talvez por isso saiam na frente. O mundo-design nasce e acontece lá, principalmente em Milão e seus arredores onde estão concentradas as maiores exposições, laboratórios e fabricantes de idéias sobre o tema.
O design urbano molda um espaço físico, dentro das necessidades de quem o utiliza, imaginando sempre como as pessoas podem interagir da melhor forma com o meio onde vivem.
Longe de querer resolver os problemas de crescimento desordenado gerado pela falta de planejamento e infraestrutura nas cidades, esta vertente busca atender, presenteando as cidades com soluções simples, mas de grande utilidade e impacto visual que abordam a beleza, a poesia, o ser humano, a segurança e o conforto e acessibilidade. Conceitual ou não, a intenção é a melhor possível e faz das ruas uma galeria de arte a céu aberto.
Assentos para pontos de ônibus, serviço de telefonia e postos de informação wireless, painéis para alongamento corporal, bancos de descanso, sinalização de calçamentos, sanitários auto-limpantes, totens de propaganda, relógios, estacionamento para as bicicletas e o local de descanso para os cães, cercados, muros e calçadas são os trabalhos mais comuns. Porém algumas ousadias são realizadas e de cair o queixo. Um dos trabalhos que considero mais lúdico e encantador é do designer Simon Heijdens, que utilizou ferramentas como projeção de luz, som e animação para fazer interagir sua arte com os movimentos da rua. Uma folha de árvore (a que criou com a projeção da luz) “cai” a cada pedestre que passa. Proposta de arte para a noite, o visual é fantástico. A arte foi inserida numa esquina, para fazer parte de uma mostra em Milão com o intuito de iluminar a cidade.
O design urbano nasceu numa época em que o crescimento das cidades é cada vez mais veloz e desordenado. As ruas estão lotadas de gente circulando por todos os lados. A educação e o zelo pelo patrimônio público já não andam lá essas coisas, e em muitas cidades os problemas ambientais tomaram proporções gigantescas. Trabalhar então com uma linguagem que faça as pessoas respeitarem o meio em que vivem para poder amenizar os problemas existentes é um desafio.
As cidades grandes aglomeram diversos tipos de pessoas. Há os que andam a pé por necessidade, e os que andam a pé por opção. Há ainda os que não podem andar a pé e o fazem com muito custo - são os portadores de alguma deficiência física, temporária ou com mobilidade reduzida como os idosos e obesos. Para que escada numa área em que um grupo prefere saltar a cerca que corta o quarteirão a dar a volta olhando belas vitrinas? Pois é, esta cerca deverá então favorecer este grupo e não prejudicá-lo. Do outro lado andarão admirando as vitrinas, as senhoras elegantes e belas moças e rapazes, solteiros e com famílias. Cada coisa no seu lugar é uma regra que se aplica em muitos países que ultrapassaram a barreira do preconceito, ditaduras e regras que não valem de nada. O que eles ganharam com isso? Liberdade de expressão com limites, que expressa a conduta de respeito à preservação ao patrimônio público. Idéia proposta através de design urbano que se aplicou na Holanda através de uma cerca de metal com encaixes dimensionados para os pés do saltador, que juntos formam um desenho de uma árvore e desafiam a coragem do cidadão.
Em São Paulo, desde 2005, algumas áreas vêm ganhando novos ares através das idéias de Arnaldo Cunha, responsável pela criação de mobiliário urbano e Benedito Abbud que revitalizou as calçadas através de piso drenante (feitos a partir de fibra de coco e concreto oferecendo 98% de absorção das águas das chuvas). “Interessante notar que, além de bonito, se uma cidade como São Paulo, com 60 mil km de calçada, usasse esse tipo de piso, teríamos uma redução significativa, que todo verão deixa milhares de vítimas”. Comenta Benedito Abbud renomado arquiteto e paisagista de São Paulo. Ele ainda é responsável pelos passeios e jardins que ganharam equipamentos para a prática de exercícios físicos, o que aproxima os cidadãos do espaço público.
Já em Bruxelas, concebido para um concurso de design urbano, um sombreiro gigante em tela desenvolvida pela indústria têxtil, serve de abrigo em dias de muito sol e arte para todos os que passeiam no parque. Leve, de custo baixo, de fácil desmontagem e montagem é vista do alto formando desenhos amebóides no gramado entre os troncos das árvores esguias.
Há empresas que exprimem seus desenhos pelo mundo há tempos. Pioneira no ramo de design urbano através de peças de mobiliário, a empresa de criação JC Decaux criada em 1964, possui mais de 205 mil peças espalhadas em 1.200 cidades de 23 países. Em Portugal, o grupo IETA, vem se destacando pelas ideias simples e originais num conceito de linguagem universal.
Quando se fala em automatização, o design urbano não tem limites, ultrapassa fronteiras e resistências tecnológicas. Na Irlanda, existe um projeto de equipar uma cidade inteira com rede wireless pública, que possibilita acesso à internet de qualquer local. Poderá então saber a quantos metros está a tal rotisserie, a escola, a loja de departamentos mais próxima. Ajudaria muito os diferentes tipos de cidadãos que andam a pé por vários motivos!